sexta-feira, 3 de outubro de 2014

AS PROEZAS DE JOÃO PÉ-QUENTE



As Proezas de João Pé-quente.

Por: Hermenegildo Freire de Macedo


Os casos de João Pé-quente
Eu vos deixo como herança
Para ser lido e contado
Do Brasil até na França
Despertando mil prazeres
Emitindo pareceres
Seja de velho ou criança.

Jovem que ama a leitura
Mostra muita qualidade
Dizendo para o que veio
Que é cobra de verdade
E não um bate cabeça
Ou coisa que não conheça
Pra viver de vaidade.

É bonito um garoto
Quando seu hábito é lê
Deixa a gente radiante
Orgulhoso de se ver
Pois mostra suas qualidades
De pessoa da verdade
Que se orgulha de viver.

Vamos tratar da história
Meus queridos companheiros
Pois o tempo não espera
Como faz o funileiro
Que começa a obra em março
Vai remando passo a passo
E só termina em janeiro

Essa história é engraçada
Parece até mentirosa
Se não fosse varias provas
Que as torna bem ditosa
Pois as fontes verdadeiras
É de gente de primeira
Que não admite prosa.

Foi num velho povoado
Onde tudo aconteceu
Não se sabe em que ano
Que o caso ocorreu
          Se for verdade ou mentira
  Ninguém vai parar na mira
  Pois quem contou já morreu


Só se sabe que o sujeito
Que andou de falação
Contava e recontava
As proezas de João,
Que agora chega a você
Com grande e muito prazer
Desse humilde cidadão.

No mundo em que vivemos
Tem muita situação
Que leva o sujeito a sério
E causa preocupação,
Como o fato que hoje conto
Sem não dar nenhum desconto
De uma certa assombração.

Há muito tempo corria
Pelas bandas do Sertão
Uma história mal contada
Dessa tal assombração,
Que em noites de lua cheia
Rasgava pano nas telhas
Cuspia fogo no chão.



Até os cabras mais fortes
Não se metia a pleitear,
A maldita assombração
Que vivia a traquejar
Fazendo o forte ter medo
Mudando assim todo enredo
Importunando o lugar.

Ninguém saia de casa
Das seis horas por diante
Com medo da tal medonha
Que atacava o viajante
Ou até mesmo o rapaz
Que assim nem ia mais
Para a casa da amante.

Todos ali preocupados
Com esta situação
Uns diziam que era alma
Ou artimanha do cão
Que não tem o que fazer
E ainda a faz sofrer
        Os coitados do Sertão

A polícia e os cangaceiros
Já viviam assustados
Cada um se defendia
Esperto e desconfiado
Pelo dia eles andavam
Mais as noites se entocavam
Em seu canto empoleirado.

Foi quando apareceu
Lá pras bandas do Barreiro
Ninguém sabia quem era
Aquele tal forasteiro
          Não parecia doutor
Nem tão pouco professor
Ou até mesmo um vaqueiro.

Andando bem sossegado
Carregando um matulão
Tragando um bom cigarro
Assoviando uma canção
Subindo e descendo ladeira
Se perdendo na poeira
Daquele seco torrão.

De repente sentiu sede
O nosso bom viajante
Procurou onde beber
Porem não achou a fonte
Então avistou uma casa
E tratou de bater aza
Sem olhar pra o horizonte.

Bateu palma em frente à casa
Do velho Tertuliano
Que veio de imediato
Atender o tal fulano
Um pouco desconfiado
Como um gato escaldado
Já quis saber de seu plano.

Tertuliano falou:
- me diga qual sua graça?
E o que deseja o bom moço
Pois parece uma boa praça
Pois raramente eu me engano
          Quando o cabra é um bom fulano
   Ou é um come de graça.

O moço então respondeu:
- Me chamam de João Pé quente
Viajo por esta estrada
Tomo rumos diferentes
Gostaria de um favor
Que da água do senhor
Me oferecesse um presente

O velho casou a barba
Com um gesto paciente
Olhou João de cima abaixo
Com um riso até contente
Desse: seu nome é estranho


Presente nada seu moço
Falou seu Tertuliano
Apesar de ser difícil
Mais choveu muito esse ano
Aqui o problema é outro
        De um bicho quevive solto
Espalhando o desengano.

Foi buscar uma moringa
Entregou para João
Puxou logo um tamborete
La do canto do salão
E pediu:  - Sente seu moço
E tome a água do poço
A melhor da região.


E num jeito curioso
Tertuliano falou:
- O senhor tome cuidado,
Para onde o moço for
Pois existe uma ameaça
Que só pode ser desgraça
Que o encardido soltou.

Com um gesto bem tranquilo
Disse: -  Aqui é João Pé quente.
Fiquei sabendo da história
Por boca de muita gente
De certa assombração
Que vive aqui no Sertão
Pois quero é ficar ciente.

O povão ficou sabendo
Do tal moço diferente
Começou a se formar
Um tumulto de repente
Se chegando pouco a pouco
Cada um mais cauteloso
        Como gato em água quente.

Todos olhavam pra João
Como quem mira pra o alvo
Havia quem garantisse
Que tudo ali tava salvo
Pois nem mesmo a assombração
Teria a salvação
Daquele moço tão bravo.

A fama de João Pé quente
Em todo Sertão corria
De ser sujeito ligeiro
E de não perde a cria
Quando saia pra caça
Topava qualquer desgraça
Seja de noite ou de dia.

Nesse  momento já tinha
Mais de trinta cidadãos
Ouvindo o proseado
Entre o velho e João
Cada um mais curioso
E bastante cauteloso
Prestando grande atenção.

Então trouxeram coalhadas
Para João saborear
Houve até velha que quis
O sujeito abanar
Serviram pinga fresquinha
E mataram uma galinha
Pro João Pé quente almoçar.

Logo depois do almoço
Sentaram-se no terreiro
João Pé quente quis saber
Da história o roteiro
Pois não ia enfrentar
O que existia lá
Sem saber tudo primeiro.

E aí surgiu contenda
Com muita explicação
Cada uma diferente
De dura compreensão
Que causava tanto medo
Pra tira o bom sossego
   Do mais forte valentão.

Teve gente que contou
Que a coisa é tão medonha
Que nem basta aparecer
Pois o sujeito já sonha
E dependendo  da noite
Se o tipo for meio afoite
 Pode até borrar a fronha.

Uma moça até contou
Que pra ela apareceu
Na noite de sexta-feira
E a mesma quase morreu
Pois a tal assombração
Tinha os olhos como o cão
Quando na terra viveu.

No meio do falatório
João Pé quente atrapalhou,
E disse: Deixa comigo.
Porque não sou desertou
Pois ainda essa noite
Não querendo ser afoite
Vou lhes mostrar meu valor.

Falou com tanta firmeza
Pra aquele povão presente
Sem deixar nenhuma dúvida
Que era um tipo decente
Estando assim bem disposto
A não dar nenhum desgosto
Ajudando aquela gente.

Calculou no seu juízo
De forma imediata
Que a coisa quando é feia
Ou aleija ou se maltrata
E naquela situação
Não tinha outra opção
A não ser dormir na mata.

Então falando consigo
Tratou de ser cauteloso
Tinha um pressentimento
De artimanha do tinhoso
        E do que o povo falava
        O que realmente notava
        Era algo perigoso.

A tarde então foi caindo
Sem ninguém arredar pé
O medo se aproximando
Cada um de orelha em pé,
Esperando a decisão
Sem mexer pernas ou mãos
Como quem toma rapé.

João Pé quente ao perceber
Aquela preocupação
Tratou de dizer ao povo
Naquela ocasião
Que resolvia a contenda
Sem deixar nenhuma emenda
Para qualquer falação.

E todos bem animados
Ofereceu-lhe pagamento
Uns lhes davam cem mil reis
E outros mil e quinhentos
Pois todos o que queria
Era  ver-se algum dia.
Bem livre de tal tormento.

João Pé quente então falou:
- Não preciso de dinheiro.
Quando pego uma luta
Mostro que sou verdadeiro
Pois lhes digo com prazer
Antes de o dia amanhecer
Jogo o bicho no terreiro.

Nesse estante o povão
Já estava animado
Uns diziam para os outros
Que o caso estava encerrado
Mais como em todo lugar
Sempre existe um gambá
Que vive desconfiado.

Zé Muleta era um desses
Que chegou ali mais tarde
           E ficou bem reservado
   Como faz um bom covarde
   Que só chega ao perigo
  Quando cobre seu umbigo
  Ou ver que a coisa não arde.

O João então perguntou
- Onde eu posso descansar?
Tertuliano falou:
- Naquele quarto acolá.
Pode fica sossegado
E sinta-se acomodado
Para poder planejar.

A noite João se aprontou
Pegou no seu matulão
Uma capa e uma corda
Duas velas e um facão
E disse vou pra espera
Ver se é gente ou fera
Essa tal de assombração.

Foi  depois das oito horas,
Que João saiu apressado
Levando consigo tudo
O que era precisado
Enfiou-se de mato adentro
Mais parecia um jumento
Quando fica assustado.

João avistou uma lareira
Bem perto uma encruzilhada
Do lado tinha uns garranchos
E umas lenhas empilhadas
Sentou e ficou olhado
Qualquer coisa procurando
Que passasse pela estrada

De repente então ouviu
Um tremendo barulhão
Quebrando mato e garranchos
Fazendo tremer o chão
Parecia o fim do mundo
E João pensou num segundo
Em toda a situação.   

Ligeiro ficou de pé
O facão sem a bainha
A corda na outra mão
        Falou essa caça é minha
        Pois nunca vi quebrar mato
        Bicho que não tem retrato
        Ou comedor de farinha.

Então a assombração
Ele viu se aproximar,
Quis acender uma vela
Para tudo clarear
Porem o tempo não dava
Porque a tal bicha brava
Ameaçou lhes pegar.

Quando a bicha apareceu
Parecia uma trovoada
Ringia os dentes e gemia
Feito cobra de invernada
João Pé quente estremeceu
Mais logo se defendeu
Daquela coisa danada.

Quando a dita deu o bote
Ganindo como gazela
Levantou as folhas secas
Que ficava perto dela
Passou a pata ligeira
Numa direção certeira
Que João quase perde a goela.

João ficou atordoado
Apontou-lhe o facão
Ligeiro e  imediato
Passou a corda na mão
Laçando a fera tremenda
Aquela figura horrenda
Chamada de assombração.

Quando a dita estremeceu
Já estava bem laçada
Estendeu-se pelo chão
Caindo desmantelada
E com a arma que tinha
João lhes deu uma mindinha
Que ficou atordoada.
  
A danada estrebuchava
Parecendo boi zebu
Enroscou-se com o focinho
Num pé de mandacaru
E João se atracou com ela
Como a corda na fivela
Em laço de couro cru.

Amarou fez um pacote
E na capa enrolou
Jogou a coisa nas costas
E pra casa regressou
Antes de raiar o dia
E do cantar da cutia
No terreiro ele chegou.

O povo lhe esperando
Com ar de admiração
Gente até que não dormiu
Ninguém sabe a razão
Se foi pela agonia
Ou mesmo de covardia
Por medo da assombração.

Quando o dia amanheceu
O lugar tava lotado
Toda gente admirada
Por ele ter regressado
Trazendo o que foi buscar
E ainda pra completar
Com o bicho empacotado.

Então gritou bem forte:
- A maldita está aí.
Eu fiz como o prometido
Minha promessa cumprir
E aquela multidão
Com alívio no coração
Começaram aplaudir.

Foi viva pra todo lado
Para saudar o João
Por ele ter resolvido
O caso da assombração
Mostrando ser bem valente
Provando pra aquela gente
Seus votos de cidadão.

   Chegou então o momento
   De a capa João retirar
           E mostrar pra todo mundo
           O que existia lá
Pois o bicho ainda rosnava
E a todos assombrava
Sem poder se controlar.

João então se aproximou
Disse:- medo não precisa
É só um pobre animal
Que já dei uma boa pisa
E desatou o pacote
Puxando pelo cangote
Naquela hora precisa.

Tudo então foi revelado
Ao povo do arraial
A tal da assombração
Era só um animal
Uma velha onça pintada
Que vivia acuada
E não fazia algum mal.

Os olhos da onça à noite
Mais parecia um tição
Brilhava como faísca
Causando má impressão
Com as patas a danada
E as unhas afiadas
Fazia riscos no chão.

O coso foi resolvido
Tudo solucionado
Da  maldita assombração
Que assustou um bocado
Porem surgiu outro fato
Que exigiu de imediato
Por todos ser destrinchado.

O que fazer com o bicho?
Todos ficaram calados
Uns diziam pra matar.
Ou pra ser esquartejado
O que mesmo não podia
Era manter a tal cria
No terreiro espichado.
  
         Então surgiu nesse meio
        Opiniões diferentes
Resultado de conversas
Com motim de muita gente
E pra resolver o impasse
Teve até quem arrumasse
Um bom traje de tenente.

João pé-quente observava
Aquilo tudo calado
Achando até muita graça
Daquele motim formado
Mais se o bicho desse um suspiro
Era pior que um tiro
No morro do corcovado.

Era gente em disparada
Pior que lebre no mato
Corria até um perigo
De um deles dar enfarto
Ou mulher ali presente
Sentir dor e de repente
Apressar a hora do parto.

Chamaram até o prefeito
E um juiz de direito
Pra discutir a questão
E traçar tudo com jeito
Pois a ocasião pedia
Algo bom com garantia
De um modo bem perfeito.

Fizeram uma reunião
Pra discutir o assunto
Chamaram o João pé-quente
Para bolarem tudo junto
E dar uma solução
Naquela situação
Do referido presunto.

João pé-quente então falou
O pior já foi passado
Ninguém corre mais perigo
Pois o bicho foi domado
Está preso e bem preso
Dando a todos bom sossego
Pra viver despreocupado.

           E então mais uma vez
           João mostrou inteligência
Falando a todos  presentes
Qual seria a providência
Que deveria ser tomada
Pra aquela bicha danada
Não causar mais imprudência.

João  falou em alta voz
Os motivos pelo qual
De uma maneira covarde
Assustou tal animal
Do seu local de vivencia
Pra vim tirar a paciência
Do povo do arraial.

João Pé-quente acordou cedo
Ainda era madrugada,
Aprontou suas bagagens
Pois tinha longa jornada
Naquelas terras tão seca
Que só se vive de perca
Pois não chove quase nada.

Ao romper Da nova aurora
Já tinha ganhado a estrada
Subindo e descendo morros
Pois era longa a caminhada
Pois pretendia chegar
Na fazenda Mangangá
Com a tarde ensolarada.

O vento soprava a testa
Mais o calor era forte
O céu limpo sem uma nuvem
No chão só rastro de morte
Daquela seca tirana
Que o mais bravo desengana
Sem confiar em tal sorte.

A fazenda Mangangá
Era grande e afamada
Por ter histórias de lutas
           De peleja a mão armada
Pois ali tinha peão
Mais bravo do que o cão
Ou bichos da madrugada.

Na entrada da fazenda
Tinha em pé uma caveira
Que o sujeito desavisado
Ao ver já sai na carreira
Simbolizando o perigo
Para o tipo atrevido
Não querer fazer besteira.

Mais nenhuma manhã levanta
Sem depois cair a tarde
Nem tem brabo sem limite
E de valente faz covarde
Pois como diz o ditado
Não existe um desgraçado
Em que pimenta não arde.

E foi lá nessa fazenda
Que João foi desafiado.
Dessa vez não era briga
Nem caso de delegado
O filho do fazendeiro
Se sentindo o verdadeiro
Deu uma de diplomado.

Sujeito da capital
Que viveu na faculdade
Se achando que era doutor
E tudo era vaidade
Quis bancar o sabichão
No ato de adivinhação
Quis mostrar autoridade.

Fez toda gente calar
Com perguntas enrascadas
Deixou sujeitos pensantes
Sem dormir nas madrugadas
Fez matuto virar noite
Com indagações afoites
Com astucias desgraçadas.

Então João foi informado
Desse sujeito matreiro
Que vivia se gravando
Feito um galo no poleiro
E disse: deixa comigo
Pois nunca enfrentei castigo
Vou ver quem berra primeiro.

Já era mais de três horas
Quando esbarrou na porteira
Olhando a caveira disse:
Quem foi que fez tal besteira?     
De expor essa ossada
Que em vida foi desgraçada
E da sorte prisioneira.

Pensando consigo mesmo
Disse: Que gente sem cultura
Não respeitando os que morrem
Que merece mais ternura
Mesmo sendo um desgraçado
Merece ser respeitado
E ter uma sepultura.

Portanto meus companheiros
Que gosta de um bom plantel
Que é cultura popular
Pra  qual tiro meu chapéu
Vou suprimir essa história
Mais guardar bem na memória
E contar noutro cordel.         

Gênero: Cordel   - Septilhão.