As Proezas de João Pé-quente.
Por:
Hermenegildo Freire de Macedo
Os casos de João Pé-quente
Eu vos deixo como herança
Para ser lido e contado
Do Brasil até na França
Despertando mil prazeres
Emitindo pareceres
Seja de velho ou criança.
Jovem que ama a leitura
Mostra muita qualidade
Dizendo para o que veio
Que é cobra de verdade
E não um bate cabeça
Ou coisa que não conheça
Pra viver de vaidade.
É bonito um garoto
Quando seu hábito é lê
Deixa a gente radiante
Orgulhoso de se ver
Pois mostra suas qualidades
De pessoa da verdade
Que se orgulha de viver.
Vamos tratar da história
Meus queridos companheiros
Pois o tempo não espera
Como faz o funileiro
Que começa a obra em março
Vai remando passo a passo
E só termina em janeiro
Essa história é engraçada
Parece até mentirosa
Se não fosse varias provas
Que as torna bem ditosa
Pois as fontes verdadeiras
É de gente de primeira
Que não admite prosa.
Foi num velho povoado
Onde tudo aconteceu
Não se sabe em que ano
Que o caso ocorreu
Se for verdade ou
mentira
Ninguém vai parar na mira
Pois quem contou já morreu
Só se sabe que
o sujeito
Que andou de
falação
Contava e
recontava
As proezas de
João,
Que agora
chega a você
Com grande e
muito prazer
Desse humilde
cidadão.
No mundo em
que vivemos
Tem muita
situação
Que leva o
sujeito a sério
E causa
preocupação,
Como o fato
que hoje conto
Sem não dar
nenhum desconto
De uma certa
assombração.
Há muito tempo
corria
Pelas bandas
do Sertão
Uma história
mal contada
Dessa tal
assombração,
Que em noites
de lua cheia
Rasgava pano
nas telhas
Cuspia fogo no
chão.
Até os cabras
mais fortes
Não se metia a
pleitear,
A maldita
assombração
Que vivia a
traquejar
Fazendo o
forte ter medo
Mudando assim
todo enredo
Importunando o
lugar.
Ninguém saia
de casa
Das seis horas
por diante
Com medo da
tal medonha
Que atacava o
viajante
Ou até mesmo o
rapaz
Que assim nem
ia mais
Para a casa da
amante.
Todos ali
preocupados
Com esta
situação
Uns diziam que
era alma
Ou artimanha
do cão
Que não tem o
que fazer
E ainda a faz sofrer
Os coitados do Sertão
A polícia e os
cangaceiros
Já viviam
assustados
Cada um se
defendia
Esperto e
desconfiado
Pelo dia eles
andavam
Mais as noites
se entocavam
Em seu canto
empoleirado.
Foi quando
apareceu
Lá pras bandas
do Barreiro
Ninguém sabia
quem era
Aquele tal
forasteiro
Não parecia doutor
Nem tão pouco
professor
Ou até mesmo
um vaqueiro.
Andando bem
sossegado
Carregando um
matulão
Tragando um
bom cigarro
Assoviando uma
canção
Subindo e
descendo ladeira
Se perdendo na
poeira
Daquele seco
torrão.
De repente
sentiu sede
O nosso bom
viajante
Procurou onde
beber
Porem não
achou a fonte
Então avistou
uma casa
E tratou de
bater aza
Sem olhar pra
o horizonte.
Bateu palma em
frente à casa
Do velho
Tertuliano
Que veio de imediato
Atender o tal
fulano
Um pouco
desconfiado
Como um gato
escaldado
Já quis saber
de seu plano.
Tertuliano
falou:
- me diga qual
sua graça?
E o que deseja
o bom moço
Pois parece
uma boa praça
Pois raramente
eu me engano
Quando o cabra é um bom
fulano
Ou é um
come de graça.
O moço então respondeu:
- Me chamam de João Pé quente
Viajo por esta estrada
Tomo rumos diferentes
Gostaria de um favor
Que da água do senhor
Me oferecesse um presente
O velho casou a barba
Com um gesto paciente
Olhou João de cima abaixo
Com um riso até contente
Desse: seu nome é estranho
Presente nada
seu moço
Falou seu
Tertuliano
Apesar de ser
difícil
Mais choveu
muito esse ano
Aqui o
problema é outro
De um bicho quevive solto
Espalhando o
desengano.
Foi buscar uma moringa
Entregou para João
Puxou logo um tamborete
La do canto do salão
E pediu: - Sente seu moço
E tome a água do poço
A melhor da região.
E num jeito curioso
Tertuliano falou:
- O senhor tome cuidado,
Para onde o moço for
Pois existe uma ameaça
Que só pode ser desgraça
Que o encardido soltou.
Com um gesto bem tranquilo
Disse: - Aqui é João Pé quente.
Fiquei sabendo da história
Por boca de muita gente
De certa assombração
Que vive aqui no Sertão
Pois quero é ficar ciente.
O povão ficou sabendo
Do tal moço diferente
Começou a se formar
Um tumulto de repente
Se chegando pouco a pouco
Cada um mais cauteloso
Como gato em água quente.
Todos olhavam
pra João
Como quem mira
pra o alvo
Havia quem
garantisse
Que tudo ali tava
salvo
Pois nem mesmo
a assombração
Teria a
salvação
Daquele moço
tão bravo.
A fama de João
Pé quente
Em todo Sertão
corria
De ser sujeito
ligeiro
E de não perde
a cria
Quando saia
pra caça
Topava
qualquer desgraça
Seja de noite
ou de dia.
Nesse momento já tinha
Mais de trinta
cidadãos
Ouvindo o
proseado
Entre o velho
e João
Cada um mais
curioso
E bastante
cauteloso
Prestando
grande atenção.
Então
trouxeram coalhadas
Para João
saborear
Houve até
velha que quis
O sujeito
abanar
Serviram pinga
fresquinha
E mataram uma
galinha
Pro João Pé
quente almoçar.
Logo depois do
almoço
Sentaram-se no
terreiro
João Pé quente
quis saber
Da história o
roteiro
Pois não ia
enfrentar
O que existia
lá
Sem saber tudo
primeiro.
E aí surgiu
contenda
Com muita explicação
Cada uma
diferente
De dura
compreensão
Que causava
tanto medo
Pra tira o bom
sossego
Do mais forte valentão.
Teve gente que contou
Que a coisa é tão medonha
Que nem basta aparecer
Pois o sujeito já sonha
E dependendo da noite
Se o tipo for meio afoite
Pode até borrar a fronha.
Uma moça até contou
Que pra ela apareceu
Na noite de sexta-feira
E a mesma quase morreu
Pois a tal assombração
Tinha os olhos como o cão
Quando na terra viveu.
No meio do falatório
João Pé quente atrapalhou,
E disse: Deixa comigo.
Porque não sou desertou
Pois ainda essa noite
Não querendo ser afoite
Vou lhes mostrar meu valor.
Falou com tanta firmeza
Pra aquele povão presente
Sem deixar nenhuma dúvida
Que era um tipo decente
Estando assim bem disposto
A não dar nenhum desgosto
Ajudando aquela gente.
Calculou no seu juízo
De forma imediata
Que a coisa quando é feia
Ou aleija ou se maltrata
E naquela situação
A não ser dormir na mata.
Então falando consigo
Tratou de ser cauteloso
Tinha um pressentimento
De artimanha do tinhoso
E do que o povo falava
O que realmente notava
Era algo perigoso.
A tarde então foi caindo
Sem ninguém arredar pé
O medo se aproximando
Cada um de orelha em pé,
Esperando a decisão
Sem mexer pernas ou mãos
Como quem toma rapé.
João Pé quente ao perceber
Aquela preocupação
Tratou de dizer ao povo
Naquela ocasião
Que resolvia a contenda
Sem deixar nenhuma emenda
Para qualquer falação.
E todos bem animados
Ofereceu-lhe pagamento
Uns lhes davam cem mil reis
E outros mil e quinhentos
Pois todos o que queria
Era ver-se algum dia.
Bem livre de tal tormento.
João Pé quente então falou:
- Não preciso de dinheiro.
Quando pego uma luta
Mostro que sou verdadeiro
Pois lhes digo com prazer
Antes de o dia amanhecer
Jogo o bicho no terreiro.
Nesse estante o povão
Já estava animado
Uns diziam para os outros
Que o caso estava encerrado
Mais como em todo lugar
Sempre existe um gambá
Que vive desconfiado.
Zé Muleta era um desses
Que chegou ali
mais tarde
E ficou bem reservado
Como faz um bom covarde
Que só chega ao perigo
Quando cobre seu umbigo
Ou ver que a coisa não arde.
O João então
perguntou
- Onde eu
posso descansar?
Tertuliano
falou:
- Naquele
quarto acolá.
Pode fica
sossegado
E sinta-se
acomodado
Para poder
planejar.
A noite João
se aprontou
Pegou no seu
matulão
Uma capa e uma
corda
Duas velas e
um facão
E disse vou
pra espera
Ver se é gente
ou fera
Essa tal de
assombração.
Foi depois das oito horas,
Que João saiu apressado
Levando
consigo tudo
O que era
precisado
Enfiou-se de
mato adentro
Mais parecia
um jumento
Quando fica
assustado.
João avistou
uma lareira
Bem perto uma
encruzilhada
Do lado tinha
uns garranchos
E umas lenhas
empilhadas
Sentou e ficou
olhado
Qualquer coisa
procurando
Que passasse
pela estrada
De repente
então ouviu
Um tremendo
barulhão
Quebrando mato
e garranchos
Fazendo tremer
o chão
Parecia o fim
do mundo
E João pensou
num segundo
Em toda a
situação.
Ligeiro ficou
de pé
O facão sem a
bainha
A corda na
outra mão
Falou essa caça é minha
Pois nunca vi quebrar mato
Bicho que não tem retrato
Ou comedor de farinha.
Então a assombração
Ele viu se aproximar,
Quis acender uma vela
Para tudo clarear
Porem o tempo não dava
Porque a tal bicha brava
Ameaçou lhes pegar.
Quando a bicha apareceu
Parecia uma trovoada
Ringia os dentes e gemia
Feito cobra de invernada
João Pé quente estremeceu
Mais logo se defendeu
Daquela coisa danada.
Quando a dita deu o bote
Ganindo como gazela
Levantou as folhas secas
Que ficava perto dela
Passou a pata ligeira
Numa direção certeira
Que João quase perde a goela.
João ficou atordoado
Apontou-lhe o facão
Ligeiro e imediato
Passou a corda na mão
Laçando a fera tremenda
Aquela figura horrenda
Chamada de assombração.
Quando a dita estremeceu
Já estava bem laçada
Estendeu-se pelo chão
Caindo desmantelada
E com a arma que tinha
João lhes deu uma mindinha
Que ficou atordoada.
A danada
estrebuchava
Parecendo boi
zebu
Enroscou-se
com o focinho
Num pé de mandacaru
E João se atracou com ela
Como a corda na fivela
Em laço de couro cru.
Amarou fez um pacote
E na capa enrolou
Jogou a coisa nas costas
E pra casa regressou
Antes de raiar o dia
E do cantar da cutia
No terreiro ele chegou.
O povo lhe esperando
Com ar de admiração
Gente até que não dormiu
Ninguém sabe a razão
Se foi pela agonia
Ou mesmo de covardia
Por medo da assombração.
Quando o dia
amanheceu
O lugar tava
lotado
Toda gente
admirada
Por ele ter
regressado
Trazendo o que
foi buscar
E ainda pra
completar
Com o bicho
empacotado.
Então gritou
bem forte:
- A maldita
está aí.
Eu fiz como o
prometido
Minha promessa
cumprir
E aquela
multidão
Com alívio no
coração
Começaram
aplaudir.
Foi viva pra
todo lado
Para saudar o
João
Por ele ter
resolvido
O caso da
assombração
Mostrando ser
bem valente
Provando pra
aquela gente
Seus votos de
cidadão.
Chegou então o momento
De a capa João retirar
E mostrar pra todo
mundo
O que existia lá
Pois o bicho
ainda rosnava
E a todos
assombrava
Sem poder se
controlar.
João então se
aproximou
Disse:- medo
não precisa
É só um pobre
animal
Que já dei uma
boa pisa
E desatou o
pacote
Puxando pelo
cangote
Naquela hora
precisa.
Tudo então foi revelado
Ao povo do arraial
A tal da assombração
Era só um animal
Uma velha onça pintada
Que vivia acuada
E não fazia algum mal.
Os olhos da
onça à noite
Mais parecia
um tição
Brilhava como
faísca
Causando má
impressão
Com as patas a
danada
E as unhas
afiadas
Fazia riscos
no chão.
O coso foi
resolvido
Tudo
solucionado
Da maldita assombração
Que assustou
um bocado
Porem surgiu
outro fato
Que exigiu de
imediato
Por todos ser
destrinchado.
O que fazer com o bicho?
Todos ficaram calados
Uns diziam pra matar.
Ou pra ser esquartejado
O que mesmo não podia
Era manter a tal cria
No terreiro espichado.
Então
surgiu nesse meio
Opiniões
diferentes
Resultado de conversas
Com motim de muita gente
E pra resolver o impasse
Teve até quem arrumasse
Um bom traje de tenente.
João pé-quente observava
Aquilo tudo calado
Achando até muita graça
Daquele motim formado
Mais se o bicho desse um suspiro
Era pior que um tiro
No morro do corcovado.
Era gente em disparada
Pior que lebre no mato
Corria até um perigo
De um deles dar enfarto
Ou mulher ali presente
Sentir dor e de repente
Apressar a hora do parto.
Chamaram até o prefeito
E um juiz de direito
Pra discutir a questão
E traçar tudo com jeito
Pois a ocasião pedia
Algo bom com garantia
De um modo bem perfeito.
Fizeram uma reunião
Pra discutir o assunto
Chamaram o João pé-quente
Para bolarem tudo junto
E dar uma solução
Naquela situação
Do referido presunto.
João pé-quente então falou
O pior já foi passado
Ninguém corre mais perigo
Pois o bicho foi domado
Está preso e bem preso
Dando a todos bom sossego
Pra viver despreocupado.
E
então mais uma vez
João
mostrou inteligência
Falando a todos presentes
Qual seria a providência
Que deveria ser tomada
Pra aquela bicha danada
Não causar mais imprudência.
João falou em alta voz
Os motivos pelo qual
De uma maneira covarde
Assustou tal animal
Do seu local de vivencia
Pra vim tirar a paciência
Do povo do arraial.
João Pé-quente acordou cedo
Ainda era madrugada,
Aprontou suas bagagens
Pois tinha longa jornada
Naquelas terras tão seca
Que só se vive de perca
Pois não chove quase nada.
Ao romper Da nova aurora
Já tinha ganhado a estrada
Subindo e descendo morros
Pois era longa a caminhada
Pois pretendia chegar
Na fazenda Mangangá
Com a tarde ensolarada.
O vento soprava a testa
Mais o calor era forte
O céu limpo sem uma nuvem
No chão só rastro de morte
Daquela seca tirana
Que o mais bravo desengana
Sem confiar em tal sorte.
A fazenda Mangangá
Era grande e afamada
Por ter histórias de lutas
De peleja a mão armada
Pois ali tinha peão
Mais bravo do que o cão
Ou bichos da madrugada.
Na entrada da fazenda
Tinha em pé uma caveira
Que o sujeito desavisado
Ao ver já sai na carreira
Simbolizando o perigo
Para o tipo atrevido
Não querer fazer besteira.
Mais nenhuma manhã levanta
Sem depois cair a tarde
Nem tem brabo sem limite
E de valente faz covarde
Pois como diz o ditado
Não existe um desgraçado
Em que pimenta não arde.
E foi lá nessa fazenda
Que João foi desafiado.
Dessa vez não era briga
Nem caso de delegado
O filho do fazendeiro
Se sentindo o verdadeiro
Deu uma de diplomado.
Sujeito da capital
Que viveu na faculdade
Se achando que era doutor
E tudo era vaidade
Quis bancar o sabichão
No ato de adivinhação
Quis mostrar autoridade.
Fez toda gente calar
Com perguntas enrascadas
Deixou sujeitos pensantes
Sem dormir nas madrugadas
Fez matuto virar noite
Com indagações afoites
Com astucias desgraçadas.
Então João foi informado
Desse sujeito matreiro
Que vivia se gravando
Feito um galo no poleiro
E disse: deixa comigo
Pois nunca enfrentei castigo
Vou ver quem berra primeiro.
Já era mais de três horas
Quando esbarrou na porteira
Olhando a caveira disse:
Quem foi que fez tal besteira?
De expor essa ossada
Que em vida foi desgraçada
E da sorte prisioneira.
Pensando consigo mesmo
Disse: Que gente sem cultura
Não respeitando os que morrem
Que merece mais ternura
Mesmo sendo um desgraçado
Merece ser respeitado
E ter uma sepultura.
Portanto meus companheiros
Que gosta de um bom plantel
Que é cultura popular
Pra qual tiro meu chapéu
Vou suprimir essa história
Mais guardar bem na memória
E contar noutro cordel.
Gênero: Cordel - Septilhão.
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