quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

contos de verão 2



Conto de Verão


Por: Hermenegildo Freire de Macedo


LEMBRANÇAS SEM FIM

Ele acomodava-se cuidadosamente todas as manhãs naquele mesmo banco da estação de trem. O povo da cidade até conhecia o seu trajeto diário. Não houve um só dia de muito  calor. Alguma tempestade ou vento forte que a privasse do ritual. Foram tantas temporadas de idas e vindas. Despedidas e chegadas apreciadas por seus olhos. Choros e risos vivenciados por seus ouvidos. Somente um distúrbio pessoal ou natural a poderia impedir de chegar ao seu martírio. Magro da estação, alguns a chamavam pelas ruas da cidade. E ele com o olhar sempre perdido e um leve sorriso nem se importava. Cumpria sua penitência. Como quem busca a plenitude da felicidade. E o tempo imperou. E naquela manhã de setembro. Aquela fiel escudeiro não parecera na estação. Olhares se dirigiram ao banco, surgiram comentários diversos. Onde estaria o Magro da estação? Já se aproximava o cair da tarde. E algumas pessoas reuniram-se para debater o tal feito e tomar uma providencia. O que de tão grave a impediu a sua vinda ao banco da estação se era algo sagrado e matinal? O que teria feito o Magro de feições tão dócil nessa manhã de setembro? E ao chegarem a um terreno baldio no fundo da pracinha que dava para a estação de trem. Um lençol encardido foi avistado. E ao lado semicoberto o corpo esquio e meio contorcido do Magro da estação. Estava completamente inerte e sem vida. E ao seu lado um maço de jornais vencidos que foram lidos quem sabe pela nobreza. E um pequeno bilhete escrito com bastão de cera dizia de forma simples.  Vou fazer uma viagem em um trem dos sonhos, não tenho bilhetes de ida e vinda, por isso não posso dizer em que ponto descerei. Não olhe para o banco da estação como se ele estivesse vazio, pois estarei eternamente repousando nele na lembrança e na saudade sem fim que é um trem que vem e vai constantemente.

15/01/2015

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