Conto de
Verão
Por: Hermenegildo Freire de Macedo
Ele acomodava-se
cuidadosamente todas as manhãs naquele mesmo banco da estação de trem. O povo
da cidade até conhecia o seu trajeto diário. Não houve um só dia de muito calor. Alguma tempestade ou vento forte que a
privasse do ritual. Foram tantas temporadas de idas e vindas. Despedidas e
chegadas apreciadas por seus olhos. Choros e risos vivenciados por seus ouvidos.
Somente um distúrbio pessoal ou natural a poderia impedir de chegar ao seu
martírio. Magro da estação, alguns a chamavam pelas ruas da cidade. E ele com o
olhar sempre perdido e um leve sorriso nem se importava. Cumpria sua penitência.
Como quem busca a plenitude da felicidade. E o tempo imperou. E naquela manhã
de setembro. Aquela fiel escudeiro não parecera na estação. Olhares se
dirigiram ao banco, surgiram comentários diversos. Onde estaria o Magro da
estação? Já se aproximava o cair da tarde. E algumas pessoas reuniram-se para
debater o tal feito e tomar uma providencia. O que de tão grave a impediu a sua
vinda ao banco da estação se era algo sagrado e matinal? O que teria feito o Magro
de feições tão dócil nessa manhã de setembro? E ao chegarem a um terreno baldio
no fundo da pracinha que dava para a estação de trem. Um lençol encardido foi
avistado. E ao lado semicoberto o corpo esquio e meio contorcido do Magro da
estação. Estava completamente inerte e sem vida. E ao seu lado um maço de
jornais vencidos que foram lidos quem sabe pela nobreza. E um pequeno bilhete
escrito com bastão de cera dizia de forma simples. Vou fazer uma viagem em um trem dos sonhos,
não tenho bilhetes de ida e vinda, por isso não posso dizer em que ponto descerei.
Não olhe para o banco da estação como se ele estivesse vazio, pois estarei
eternamente repousando nele na lembrança e na saudade sem fim que é um trem que
vem e vai constantemente.
15/01/2015
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