sexta-feira, 3 de outubro de 2014

GAFANHOTO NÃO É GRILO



Literatura de Cordel
Autor: Hermenegildo Freire de Macedo

Gafanhoto não é grilo


Vejam aqui criançada
Uma história popular
Um caso bem diferente
Pro cordelista contar
No visto bem curioso
Pois vale apena escutar.

Nesse mundo de meu Deus
Todos querem seus direitos
Seja justo ou errado
Certinho ou com defeito
O melhor é se dar bem
De tudo tirar proveito.

Mais existe certas coisas
Que já passa do imite
E às vezes só se emenda
Com cola quente e ribite.
Como manhas de sujeitos
Que vive de dar trambique.

Mais vou narrar à história
Que vim aqui pra contar
Antes que alguém pense
Que quero é enrolar.
Pois não o meu costume
De o leitor trambicar.

1
Esse caso é engraçado
Eu acho até anormal
Pois a contenda ocorre
No vasto mundo animal
Porque também nesse meio
Nenhum sujeito é igual.

O fato aconteceu
Sobre um pé de cajazeira
Era quase meio-dia
Quando rolou a zoeira
Um gafanhoto e um grilo
Discutindo por besteira.

Em menos de meia hora
Reuniu-se a bicharada
Em volta daquela moita
Para ver a disparada
De afronta e xingamento
A  troco de quase nada.

O grilo falava alto
Que zumbia no ouvido
O gafanhoto respondia
Com um jeito atrevido
Querendo ser valentão
Deixando o outro inibido.

2
O grilo dizia: eu canto
Com muita sabedoria
Tocando meu violão
Seja  noite ou de dia
Não sou um cabeça oca
Que fala sem garantia.

Canto lá na invernada
Faço uma festança legal
Minha voz é afinada
Eu não sou um bicho mal.
Que vive encasacado.
Procurando algum rival.

Ao ouvir essa conversa
O gafanhoto se armou
Levantou a sua antena
Na casaca se ajeitou
Parecia que o malandro
Nesse instante endoidou.

A formiga até falou:
- Se acalme companheiro
Não precisa essa contenda
Seja assim os dois parceiro
Isso é um mal entendido
Um ato muito fuleiro.

3
Alguns que ali se achavam
De nada ainda entendia
Mais parou pra espiar
As cenas que ocorria
Pois nada assim é normal
Naquelas horas do dia.

- Mais o que aconteceu?
Falou a rã assustada
Chegou também o tatu
Correndo em disparada
A cutia já gritando
Dizia: A coisa é retada.

O saguim se empoleirou
No galho da cajazeira
Falando para a preguiça
Sobre o caso da zoeira
Uma borboleta olhava
Do alto da bananeira.

Até mesmo a girafa
Quis a cena apreciar
Espichava seu pescoço
Para tudo observar
Mais tropeçou na rabada
Do mestre tamanduá.

4
Assim seguia-se o tumulto
Cada bicho a palpitar
Uns rosnavam com mais força
Outros somente a zurrar
Ninguém mais se entendia
No meio do blá-blá-blá.

Um touro velho cansado
Chegou mastigando feno
Ouviu a conversa e saiu
Nem mesmo deu um aceno
Disse: é briga de pivetes
Coisa de bicho pequeno.

Uma coruja esperta
Aproximou-se para olhar
Soltando um piu medonho
Começou logo a falar
Esses dois desocupados
Deviam é se respeitar.

A confusão era tanta
Que ninguém se entendia
Uma pata velha choca
Passou mal deu agonia
Espichou-se lá no chão
Só acordou com dois dias.

5
Um inhambu cordiniz
Que só anda em disparada
Assustou-se e veio ver
O motivo da zoada
Se meteu na confusão
Sem ter sido convidada.

Uma ovelha sabichona
Quis dar sua opinião
Mais o grilo agradeceu
Acenando com a mão
O carneiro e um cabrito
Gargalhou da decisão.

A  Lontra muito gorda
Chegou-se devagarinho
Não gostando da conversa
Foi saindo de fininho
E disse para todos
Ter vergonha no focinho.

O veado bicho esperto
Não quis se aproximar
Ali não valia a pena
O tempo desperdiçar
Convidou o bacurau
Pra na sombra descansar.

6
O gavião e a águia
Deram uma sobrevoada
Viu o grilo a bater boca
Xingado por quase nada
Bateu azas para longe
Pra não ver a palhaçada.

O burro e sua burrice
Se meteu logo na briga
Sem saber do ocorrido
Nem a causa da intriga
Foi de lá escorraçado
Com um chute na barriga.

Saiu doido em disparada
Sem enxergar o caminho
Encontrou com o cavalo
Quase bate o focinho
Levou mais um safanão
Que viu tudo miudinho.

A égua compadecida
Reclamou para o marido
- não bata no desgraçado
Não vê que tá desprovido
E o cavalo respondeu:
- esse burro é um atrevido.

7
E um jumento zurrou
Disse: - boa companheiro
Merecia mais uns  tapas
Para não se xereteiro
Vejam se me meto nisso
Prefiro ser bem matreiro.

Parecia que a loucura
Baixou no reina animal
Ninguém mais se entendia
Num tumulto infernal
E ali os dois causadores
Sentiam-se um maioral

A selva estava agitada
Uma tremenda confusão
Quando o jabuti lembrou
E deu sua opinião
Que pra resolver o caso
Vou chamar o rei leão.

Quando o jabuti falou
O silêncio foi total
Cada um baixou a voz
Ninguém mais quis ser o tal
Teve bicho meio covarde.
A se esconder no matagal.

8
Se o leão ali chegasse
Resolvia num segundo
Botava tudo na ordem
Manobrava todo mundo
Bicho brabo se calava
Dentro de buraco fundo.

Disseram em alta voz:
Tu tá doido jabuti!
Se o leão aqui chegar
Não sobra gato ou quati
Deixe isso entre nós
Vê se cala por aí.

Até o lobo guará
Apoiou  a bicharada
Seguido do javali
E até da onça pintada
Que murmurou baixinho  
Não faças a coisa errada.

O grilo e o gafanhoto
Chegaram à conclusão
Que mesmo com diferenças
Os dois era meio irmão
Não tendo mais  motivo
De tamanha confusão.

9
E acabou-se a demanda
Do grilo e do gafanhoto
Reinaram lá na floresta
Um respeitando o outro
Mais todo fiquem sabendo
Que grilo não é gafanhoto.


Especialmente para minha filha  Eduarda. Te amo filha.



Descrição: D:\Pictures\img013.jpg



Povoado Cajaiba 11/02/2010.






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