sexta-feira, 3 de outubro de 2014

DA LIBERDADE A OPRESSÃO



Literatura de Cordel

Autor. Hermenegildo Freire de Macedo

Da liberdade à opressão

Assim dizia um negro

Em sua angustia tremenda

Lembrando-se da mãe terra

Onde era feliz em sua tenda

Lá eu tinha liberdade

Aqui só desprezo e maldade

Nessa triste e vida horrenda.



Minha cultura negada

Estou réu da triste sorte

Se tiver maior tormento

É melhor mandar a morte

Mais Deus vai está comigo

E vencerei tal castigo

Por que sou justo e forte.



Aqui não conheço a terra

Apesar das maravilhas

Minha gente é desprezada

Tratados como novilhas

Nosso sorriso de outrora

Pouco a pouco foi embora

Já não fazemos partilhas.



No momento em que tiraram

A nossa pátria querida

Não respeitando o meu povo

Abrindo em nós uma ferida

Destruindo a esperança

E nos dando como herança

Essa horrível e triste vida.



Tudo isso começou

Lá no século dezesseis

No ano de trinta e nove

Onde a primeira vez

Navios com meus irmãos

Empilhados no porão

Parada aqui se fez.



De Ruanda e Moçambique

Luanda e Mandagascá.

Ou de vilas revoltosas

Que guerreavam por lá

Querendo fugir das lutas

 Que toda gente assusta

Decidiam vir pra cá.



Na história encontramos

Vários fatos relatados

De irmãos que lá na África

Já viviam  escravizados

Prisioneiros de guerra

Que mesmo na própria terra

Eram desafortunados.



Até então justifica

As lutas entre os irmãos

Suas causas e pelejas

Ou falta de união

Pois isso não dar direito

De colocar um sujeito

Nas barras da escravidão.


Retroceder no passado

Pode até ser sofrimento

Porém tem necessidade

Mesmo causando tormento

Pra engrossar nossa luta

Que vive de pernas curta

Sendo  causa de lamento.



Os negros que aqui chegaram

Trouxe em si sofrimentos

Devido a várias razões

Com diversos argumentos

Gerados por longos anos

Que divergiram dos planos

E demais experimentos.



Adentrar nessa história

É ver cenas de horror

Onde o próprio ser humano

Foi o seu próprio mentor

De ações exacerbadas

De postura envergonhada

Dos momentos de terror.



Como já citei em versos

A escravidão já existia

Por  revoltas e contendas

Que o próprio negro fazia

Mais nada nos dar direito

De lhes faltar com respeito

E atos de covardia.


A  angustia começava

Ainda em sua nação

Em um momento tirano

Que era a separação

Onde pai deixava filho

Como se faz com novilho

Em tempos de apartação.



Nos tais navios negreiros

Em porões eram jogados

Em condições sub-humanas

Dia e noite torturados

A miséria e a maldade

E a perda da liberdade

Deixavam-lhes atordoados.



A dor que lhes consumia

Até preferir a morte

Privados de higiene

Naquele infeliz transporte

Onde em cada momento

Aumentava o sofrimento

Daquele infeliz sem sorte.



Devido ao grande maltrato

Mais da metade morria

Por pestes e outros males

Que durante a travessia

Matava sem piedade

Completando a crueldade

Que ali já existia.



Ao chegar à nova terra

Como boi vai ao curral

Era levado ao mercado

Tratados como animal

Vendidos como objeto

Negando total afeto

E reputação moral.



Em lotes como ovelhas

Pelas ruas espalhados

Seminuas e descobertos

Eram assim negociados

Como gados de boiada

Que se compra por manada

Por um preço ajustado.



Compradores fazendeiros

Pelas raças escolia.

Dentes, mãos e as canelas.

Eram partes de valia

Altura, força e postura.

Pra enfrentar a agricultura

Como o dono preferia.



Pras fazendas são levados

O mais rápido que podia

Separando língua e sangue

Para assim ter garantia

De qualquer dia futuro

Não se ver pelo escuro

Movimentos de alforria.   



Bem distante da mãe terra

Seu sentimento negado

Na sua mente só ronda

Pensamentos revoltado

Seu trabalho é diversão

Mesmo sendo de aflição

E por todos rejeitado.



A senzala seu recanto

O seu monstro o pelourinho

A esperança que já foge

E lhes deixa ali sozinho

O seu corpo bem cansado

Não quer mais ver o passado

Só seguir o seu caminho.



Os canaviais floridos

A flor do branco algodão

Tudo aquilo é um massacre

São rastros da solidão

Em nada encontra beleza

Só correntes de tristeza

Invadem  seu coração.



O por do sol que outrora

Parecia a poesia

Transfigura em sua mente

Um cenário de heresia.

Que machuca e que tortura

Causando-lhes a tontura

Em um céu de agonia.



Os dias vão se passando

 Meses, anos sem parar.

E o negro livre de outrora

 Vive sempre a lamentar

Parece que o divino

Não liga mais pra o destino

Dos que devia salvar.



Humilhação permanente

A fome, a sede o frio.

Violência que impera

Como a água invade o rio

Só lhes resta a união

Que é feita em contramão

Em resposta ao desafio.



É lá no corte da cana

No meio do cafezal

Que ele trama sua fuga

Daquele espaço infernal

Desenvolve a capoeira

Uma arte bem maneira

Ou uma arma mortal.



Porém o tempo se passa

E a liberdade distante

Sua vida é muito triste

O seu lamento constante

só sofrimento e maldade

E marcas da crueldade

Deixa-lhes estonteante.



Mas a  liberdade e a fé

É a marca de seus ombros

Procura dia e noite

Nada a eles causa assombros

E de forma organizada

Obedecendo as pisadas

Vão construindo os quilombos.



Temos quilombos famosos

Como o do chefe Zumbi

Que com luta e liberdade

Ajudou a construir

Uma nação independente

Como chefe inteligente

Que vivera por aqui.



Quem assinou a lei Áurea

Foi à princesa Isabel.

Mais é pra o chefe Zumbi

Que eu tiro meu chapéu

Por se um símbolo de luta

Que às vezes a história oculta

De uma forma bem cruel.



Assim fizeram com o índio

Escravizado primeiro

Que conto em outra história

E faço outro roteiro

Pra não confundir vocês.

Pois sei que é a primeira vez

Em que ouve esse letreiro. fim


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